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Cabo Verde está a um empate de poder festejar a presença na fase a eliminar do seu primeiro Mundial. O sorteio e o calendário não foram meigos com os Tubarões Azuis, mas Bubista teve a competência para desenhar dois planos bem-sucedidos, que levaram a equipa das ilhas a empatar com a Espanha e o Uruguai. E se no jogo com os espanhóis o segredo foi a capacidade para anestesiar o adversário, ocupando racionalmente os espaços no seu terço defensivo, já frente ao Uruguai vimos Cabo Verde a jogar no campo todo, privado de um resultado melhor por conta de sete minutos de desorientação no final da primeira parte, em que sofreu os dois golos. Face à agressividade do adversário no ataque às zonas de finalização, os dois centrais e o guarda-redes não foram tão dominadores como no primeiro jogo. Se na estreia outra chave tinha sido a capacidade dos extremos para acompanhar os laterais espanhóis, dando depois aos laterais e aos médios a incumbência de fecharem o espaço interior à frente da área, ontem o que se viu já foi uma equipa capaz de criar dúvidas ao adversário no momento com bola, muito graças às entradas de Telmo Arcanjo para a zona média e de Benchimol para o ataque. Já no particular contra a Sérvia vira Arcanjo, que é um extremo no Vitória SC, jogar ali, como segundo médio – e o que me parecia era que, num jogo mais intenso, isso seria impraticável. Mas não. É verdade que Arcanjo ganharia muito se juntasse à sua capacidade de condução e aos olhinhos que tem na bota esquerda alguma intensidade-extra, mas se havia jogo em que essa lacuna ia ser posta à prova era este, contra o Uruguai. E foi nele que Bubista ali o utilizou. Ora, mesmo tendo o primeiro golo surgido num momento em que ele começou por se deixar cair, com cãimbras, apenas para depois se levantar e correr a fechar o espaço quando viu que o adversário que o ajudava a alongar, Viñas, saiu disparado para o ataque, não foi por aí que Cabo Verde claudicou. Com Benchimol mais capaz de funcionar como apoio quando a equipa tinha a bola, Cabo Verde foi uma seleção multifacetada, capaz de crescer para a frente. Organizada em 4x1x4x1 no início, com dois médios criativos à frente de Kevin Pina – Arcanjo e Jamiro –, acabou em 4x2x3x1, com Deroy Duarte e Yannick Semedo atrás de Laros, quando do que precisava era de segurar o 2-2. Contra a Arábia Saudita, no último dia, o que se pedirá será seguramente uma terceira identidade para uma terceira missão. É verdade que bastará empatar, que mesmo que o Uruguai pontue com a Espanha esse ponto chegará sempre pelo menos para um terceiro lugar que deve dar qualificação – é hoje quase certo que três pontos e saldo nulo de golos bastarão para se ser um dos oito melhores terceiros. Mas pela frente estará uma equipa que precisa de ganhar, que tem qualidade técnica e não é intensa. Será, talvez, o dia de vermos Cabo Verde jogar à patrão e carimbar com estilo a entrada nos 16-avos-de-final.
A garra de Maxi. É interessante que no Uruguai-Cabo Verde se tenham defrontado, ainda que em corredores diferentes, Maxi Araújo e Sidny Lopes Cabral e que os dois adotem nas seleções missões inversas às que foram deles no Sporting e no Benfica. Sidny, que José Mourinho só usou como extremo, chegando até a dizer que para ele o jogador era curto para ser lateral, joga exatamente como defesa-esquerdo por Cabo Verde. E Maxi, que no Sporting é lateral, joga como extremo no Uruguai de Marcelo Bielsa. Afinal, onde rendem mais? Depende muito da organização de cada equipa. Cabo Verde é uma seleção muito bem organizada e solidária, geralmente não precisa de assumir os jogos, pelo que suporta bem Sidny como lateral e até o usa para esticar e levar a bola para a frente com regularidade. Quanto a Maxi, aparece como oásis num Uruguai dececionante, que só mostra duas coisas boas: a pressão individual que faz na frente e a agressividade no ataque a zonas de finalização. E é precisamente nisso que ele mais se notabiliza, o que explica que tenha estado nos três golos que a equipa marcou até aqui – fez dois e assistiu no outro. Muitos lembrarão que, quando Pedro Gonçalves se lesionou e Rui Borges usou Maxi na frente, em Dezembro, ele contribuiu com quatro golos em quatro jogos. Porque não usá-lo mais vezes assim, então? Simples: porque nenhuma equipa grande quererá jogar tão pouco como este reativo Uruguai de Bielsa.
Do Uruguai à Bélgica. O Uruguai e a Bélgica estão entre as deceções das primeiras jornadas, porque nem um nem a outra ganharam um jogo, mesmo sem terem tido adversários de um grau de dificuldade extraordinário, e vão para a última ronda com dois pontos apenas. E, no entanto, o mais certo neste momento é que a Bélgica se qualifique e o Uruguai acabe por ficar de fora. Sendo altamente provável, como já escrevi atrás, que todos os terceiros classificados com três pontos e saldo nulo de golos se apurem, a diferença de cenários explica-se por dois aspetos. Um é que enquanto os belgas vão fechar o grupo com a Nova Zelândia, ao Uruguai falta defrontar a Espanha – e a Espanha com Yamal, mais vertical e agressiva na entrada no último terço, é outra coisa, como se viu na forma rápida com que desfez ontem a oposição saudita. O outro é que se percebe que a Bélgica pode melhorar, seja em construção, se vier a ter Debast atrás, ou em criação, se der mais vezes a De Bruyne hipóteses de encarar o jogo de frente – o que também passará por algum recuo dele no campo. Já o Uruguai se percebe que é e será curto seja como for, porque o problema são as ideias, também elas curtas para o talento disponível. Pode pontuar com a Espanha? Pode, certamente. Mas eu não meteria dinheiro nisso.
A lenda Beiranvand. Os iranianos levam muito a sério os seus guarda-redes. Quem viu a série ‘Homeland’ – ‘Segurança Nacional’ na versão portuguesa – e também gosta de futebol, lembra-se de, na terceira temporada, os autores lhe terem dado uma piscadela de olho, ao levarem Majid Javadi, um membro da guarda revolucionária que era suspeito de desvio e branqueamento de capitais, a usar o nome de Nasser Hedjazi de maneira a esconder a sua intromissão no esquema. Curiosamente, não só foi isso que acabou por chamar a atenção de uma analista iraniana da CIA como o facto causou mais incómodo entre os espectadores que conseguiram ver a série no país do que a admissão de que o regime que os tutela pratica terrorismo de estado. É que Hedjazi, o guarda-redes da seleção que esteve no Mundial de 1978, entretanto falecido, é uma lenda local. Como lenda há-de vir a ser Alireza Beiranvand, um guarda-redes que teve de fugir de casa, de uma família de nómadas Lak, para escapar a um destino que o levaria inevitavelmente a ser pastor de cabras. Beiranvand até já passou um ano no Boavista, metade dele como suplente do já veteraníssimo Bracali (na altura com 41 anos), mas vai no terceiro Mundial. No primeiro, defendeu um penalti de Cristiano Ronaldo. No segundo, na partida frente a Inglaterra, ficou em campo por vários minutos depois de uma colisão aterrorizante com um companheiro, na sequência de uma saída temerária, a bloquear um cruzamento, o ter deixado de nariz ensanguentado e totalmente desorientado, sem saber quem era nem onde estava. Ontem, contra a Bélgica, fez sete defesas (1,70 Golos Evitados, na Opta) e foi essencial na manutenção do 0-0. Uma delas, após remate de De Kuyper desferido mesmo à queima, aos 59’, é daquelas impossíveis: já no chão, ganhou impulsão lateral, esticou o imenso braço esquerdo e deteve com a luva uma bola que a cada repetição parece sempre ir inexoravelmente para dentro da baliza. É o salvo-conduto para um dia vir a ser pseudónimo numa série americana.
A ver
Argentina-Áustria, 18h, Sport TV5 e LiveMode TV
França-Iraque, 22h, Sport TV5
Noruega-Senegal, 1h, Sport TV5
Jordânia-Argélia, 4h, Sport TV5.
A ler
Connexion très haut débit é a décryptage do L’Équipe, assinada por Damien Degorre, a explicar com imagens a ligação entre Olise e Mbappé e o que muda na seleção francesa com o primeiro à direita ou ao meio.
Vamos! Why do so many footballers shout in Spanish, explica Thom Harris, no The Athletic, a propósito do grito que tantas vezes se vê e ouve nas celebrações dos golos. Convém explicar que é português também.

